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Chás tradicionalmente associados ao relaxamento: 6 opções, preparo e cuidados

Conheça camomila, melissa, passiflora, valeriana, lavanda e capim-cidreira e entenda o que a ciência realmente diz sobre cada uma.

Uma xícara quente pode combinar perfeitamente com um momento de descanso. Isso, porém, não significa que todo chá conhecido como “calmante” tenha efeito terapêutico comprovado.

Algumas plantas possuem longa tradição de uso associada ao relaxamento e também aparecem em pesquisas científicas. Entretanto, os estudos podem utilizar chá, extrato seco, cápsulas, óleo essencial ou formulações padronizadas — preparações que não são equivalentes.

Por isso, ao conhecer os chás tradicionalmente associados ao relaxamento, vale separar três coisas: uso popular, resultados de pesquisas e eficácia clínica suficientemente demonstrada.

A Anvisa disponibiliza o Formulário de Fitoterápicos da Farmacopeia Brasileira, que reúne monografias e informações técnicas sobre espécies vegetais, preparações, usos e advertências.

O que realmente significa chamar um chá de “calmante”?

Na conversa do dia a dia, chá calmante costuma significar uma bebida feita com plantas tradicionalmente ligadas a descanso, relaxamento ou sono.

Entretanto, essa expressão popular não representa uma categoria que garanta determinado resultado.

Também é importante não tratar como sinônimos:

  • Bebida de ervas: pode ser consumida simplesmente pelo sabor, aroma ou hábito. Isso não transforma automaticamente a bebida em tratamento.
  • Planta medicinal: envolve uma espécie vegetal utilizada com determinada finalidade terapêutica e dentro de condições específicas.
  • Fitoterápico: possui apresentação, composição, requisitos de qualidade e regulamentação próprios.

O Ministério da Saúde também destaca a importância do uso seguro e racional das plantas medicinais e dos fitoterápicos.

Portanto, uma infusão preparada em casa não deve ser automaticamente comparada a um medicamento ou extrato utilizado em pesquisa.

6 chás tradicionalmente associados ao relaxamento

1. Camomila

A camomila está entre as plantas mais lembradas quando alguém pensa em uma bebida para o fim do dia.

Uma espécie encontrada em referências oficiais brasileiras é Matricaria chamomilla, também apresentada em algumas fontes sob sinonímias botânicas. A Relação Nacional de Plantas Medicinais de Interesse ao SUS inclui a camomila e registra essas sinonímias.

Em relação aos possíveis efeitos sobre ansiedade e sono, a situação é mais interessante do que simplesmente dizer que “funciona”.

Uma revisão sistemática e meta-análise disponível no PubMed encontrou resultados favoráveis em alguns desfechos, como qualidade do sono e determinados grupos avaliados para ansiedade generalizada. Entretanto, os próprios pesquisadores destacaram que havia pouca evidência para outros desfechos e que estudos maiores ainda eram necessários.

Outra revisão de ensaios clínicos publicada em 2024 também encontrou resultados promissores.

Na prática: esses trabalhos justificam dizer que a camomila vem sendo estudada. Eles não justificam afirmar que qualquer xícara de chá produzirá um efeito terapêutico previsível.

Também existe a possibilidade de reações alérgicas, principalmente em pessoas sensíveis à planta ou a outras espécies da família Asteraceae, conforme informa a Agência Europeia de Medicamentos.

2. Melissa ou erva-cidreira verdadeira

Aqui aparece uma confusão bastante comum no Brasil.

A Melissa officinalis também pode ser chamada de erva-cidreira, porém esse nome popular é utilizado para diferentes plantas.

Por isso, olhar apenas a placa da feira ou o nome informal da embalagem pode não ser suficiente para saber exatamente qual espécie está sendo utilizada.

Há pesquisas clínicas sobre a Melissa officinalis. Uma revisão sistemática com meta-análise encontrou melhora em medidas de ansiedade nos estudos analisados.

Contudo, os pesquisadores destacaram grande heterogeneidade entre os estudos, diferenças metodológicas e pequeno número de ensaios clínicos. Portanto, os resultados precisam ser interpretados com cautela.

A Agência Europeia de Medicamentos também possui uma monografia específica para Melissa officinalis, o que ajuda a confirmar a importância de trabalhar com espécie e parte vegetal identificadas, e não apenas com o nome popular.

3. Passiflora

Falar simplesmente em “chá de maracujá” cria outro problema: existem diferentes espécies de Passiflora.

A relação brasileira de plantas medicinais de interesse ao SUS, por exemplo, relaciona espécies como Passiflora alata, Passiflora edulis e Passiflora incarnata.

Por outro lado, boa parte dos estudos clínicos disponíveis sobre relaxamento e ansiedade envolve especificamente Passiflora incarnata.

Uma revisão sistemática sobre Passiflora incarnata reuniu nove ensaios clínicos e encontrou resultados favoráveis em boa parte deles. Porém, os trabalhos variavam bastante em duração, preparação utilizada e contexto clínico.

Além disso, uma revisão Cochrane anterior considerou o número de ensaios pequeno demais para conclusões firmes.

Isso mostra por que esta frase deve ser evitada:

“Folha de maracujá comprovadamente acalma.”

O correto é verificar qual Passiflora, qual parte da planta e qual preparação foi estudada.

Dia a dia na prática

Imagine encontrar nas redes sociais a frase:

“Um estudo comprovou que maracujá reduz ansiedade.”

Antes de concluir qualquer coisa, quatro perguntas mudam completamente a interpretação:

  • Qual espécie foi pesquisada? Passiflora incarnata não representa automaticamente todas as espécies do gênero.
  • Qual parte da planta foi usada? Folha, parte aérea, fruto e extratos podem ter composições diferentes.
  • Qual preparação foi administrada? Uma cápsula de extrato padronizado não corresponde necessariamente a uma infusão.
  • Quem participou do estudo? Resultados obtidos em um grupo específico não devem ser generalizados automaticamente para toda a população.

Esse raciocínio também vale para as outras plantas desta lista.

4. Valeriana

A Valeriana officinalis talvez seja um dos melhores exemplos de como evidências científicas podem parecer contraditórias quando observadas superficialmente.

Uma revisão sistemática e meta-análise sobre valeriana e sono encontrou possível melhora subjetiva na qualidade do sono, mas também identificou problemas metodológicos, diferentes doses e preparações e possível viés de publicação.

Outra revisão sistemática concluiu que os estudos mais rigorosos disponíveis naquele momento não demonstravam eficácia convincente.

Já uma revisão mais recente encontrou resultados mais favoráveis, mas destacou que diferenças na qualidade e no tipo dos extratos poderiam explicar parte das inconsistências.

Portanto, a mensagem mais fiel às evidências é simples:

a valeriana foi bastante pesquisada, mas os resultados dependem muito da preparação e da qualidade dos estudos.

Além disso, a monografia da Agência Europeia de Medicamentos sobre Valeriana officinalis apresenta precauções específicas para produtos medicinais à base da raiz, incluindo possíveis efeitos sobre atividades que exigem atenção.

Por isso, não é adequado resumir a planta como um simples “sedativo natural”.

5. Lavanda

O aroma da lavanda contribuiu para sua associação popular com ambientes tranquilos. No entanto, cientificamente, há uma diferença fundamental entre flores usadas em infusão, óleo essencial inalado e produtos padronizados ingeridos.

Uma grande revisão sistemática e meta-análise sobre lavanda encontrou resultados favoráveis em diferentes contextos relacionados à ansiedade.

Porém, parte relevante das evidências envolveu inalação do aroma ou uma preparação oral padronizada de óleo de lavanda.

Outro trabalho sobre a preparação oral padronizada avaliou especificamente cápsulas contendo óleo de lavanda.

Logo, não seria correto transformar esses resultados na conclusão:

“chá de lavanda tem o mesmo efeito.”

A própria Agência Europeia de Medicamentos mantém documentos separados para as flores de Lavandula angustifolia e para óleo essencial de lavanda.

Essa separação mostra por que a forma de preparação faz diferença.

6. Capim-cidreira

O capim-cidreira, também chamado em algumas regiões de capim-santo, pode corresponder a Cymbopogon citratus.

Não é a mesma espécie que Melissa officinalis.

Aliás, esta talvez seja a opção mais interessante da lista quando o objetivo é mostrar que tradição e evidência científica podem apontar para direções diferentes.

Um ensaio clínico realizado com uma bebida preparada a partir das folhas secas de Cymbopogon citratus avaliou voluntários e não encontrou diferenças em medidas relacionadas a sono ou ansiedade quando comparado ao placebo.

Já estudos mais recentes sobre aroma ou óleo essencial, como um ensaio publicado em 2025, investigaram outra forma de utilização e encontraram resultados favoráveis em um contexto específico de ansiedade odontológica.

Mais uma vez, portanto:

óleo essencial inalado e chá não são a mesma intervenção.

A Anvisa também possui um relatório de avaliação específico para Cymbopogon citratus.

Preparo de infusão com diferentes partes das plantas
Preparo de infusão com diferentes partes das plantas

Comparação rápida das 6 opções

PlantaIdentificação de referênciaO que a pesquisa sugerePrincipal cuidado ao interpretar
CamomilaMatricaria chamomilla / M. recutitaExistem estudos clínicos com resultados promissoresNem todos os desfechos apresentam evidência consistente
MelissaMelissa officinalisResultados favoráveis em alguns ensaiosPoucos estudos e alta heterogeneidade
PassifloraDepende da espécie; muitos estudos usam P. incarnataAlguns ensaios apresentam resultados positivosNão generalizar uma espécie para todas
ValerianaValeriana officinalisLiteratura extensa, mas resultados heterogêneosMuitos estudos utilizam extratos específicos
LavandaLavandula angustifoliaHá estudos favoráveis em determinadas preparaçõesMuitas pesquisas envolvem óleo/aromaterapia, não chá
Capim-cidreiraCymbopogon citratusUso tradicional forte; evidência clínica para infusão é limitadaEstudo com bebida não encontrou efeito ansiolítico ou hipnótico

Como preparar esses chás?

Não existe uma combinação universal de quantidade, temperatura e tempo de infusão adequada para todas essas plantas.

Isso porque o método depende de fatores como:

  • Parte vegetal: flores, folhas e raízes possuem características diferentes.
  • Apresentação do produto: material triturado, sachê e preparações padronizadas não são necessariamente equivalentes.
  • Quantidade de planta e água: altera a concentração final da bebida.
  • Tempo de contato: pode modificar aroma, sabor e quantidade de compostos extraídos.
  • Instruções específicas: quando o produto traz orientação confiável de preparo, ela deve ser considerada.

Para entender melhor essas diferenças, vale consultar também Como preparar chá corretamente: temperatura da água, tempo de infusão e erros comuns.

Cuidados antes de consumir chás associados ao relaxamento

“Natural” e “seguro em qualquer situação” não significam a mesma coisa.

Plantas possuem compostos biologicamente ativos. Consequentemente, produtos feitos com elas podem apresentar contraindicações, alergias, efeitos indesejáveis ou interações, dependendo da espécie e da forma utilizada.

Medicamentos

Quem utiliza medicamentos regularmente não deve presumir que qualquer chá ou produto vegetal seja automaticamente compatível com o tratamento.

Isso merece ainda mais atenção quando a própria preparação pode produzir efeitos sobre sono, atenção ou sistema nervoso central.

Portanto, em caso de tratamento contínuo, o mais prudente é verificar a compatibilidade com um profissional habilitado antes do consumo frequente.

Gravidez e amamentação

Não existe uma regra segura do tipo:

“é natural, então grávida pode tomar.”

A segurança depende da espécie, preparação, quantidade e condição individual.

Além disso, falta de evidência de risco não significa automaticamente segurança comprovada.

Durante a gestação ou amamentação, a segurança deve ser verificada para a espécie e a preparação específicas antes do consumo. Quando houver dúvida, a orientação de um profissional de saúde é a opção mais prudente.

Alergias

Até plantas muito populares podem desencadear reações.

A Agência Europeia de Medicamentos relata a possibilidade de reações alérgicas com preparações de camomila e recomenda cuidado especial para pessoas alérgicas a plantas da família Asteraceae.

Erva-cidreira e capim-cidreira são a mesma coisa?

Não necessariamente.

Esse é um dos erros mais fáceis de cometer ao comprar plantas apenas pelo nome popular.

Melissa officinalis e Cymbopogon citratus, por exemplo, são espécies diferentes, embora ambas possam receber nomes populares relacionados a “cidreira”.

Por isso, sempre que possível, confira três informações:

  1. Nome popular
  2. Nome científico
  3. Parte vegetal utilizada

Isso importa tanto para interpretar pesquisas quanto para consultar contraindicações e formas de preparo.

Diferença entre chá caseiro e preparações estudadas
Diferença entre chá caseiro e preparações estudadas

Planta estudada não significa chá comprovado

Este talvez seja o ponto mais importante de todo o assunto.

Imagine que um estudo utilize uma cápsula contendo determinada quantidade de um extrato padronizado de valeriana.

Mesmo que os participantes apresentem algum resultado positivo, não é possível concluir automaticamente:

“uma xícara de chá de valeriana fará a mesma coisa.”

A concentração final pode mudar conforme espécie, parte vegetal, cultivo, processamento, armazenamento, método de extração, quantidade, temperatura e tempo.

A situação fica ainda mais evidente com a lavanda, porque grande parte dos estudos envolve aromaterapia ou produtos derivados do óleo essencial.

Portanto, ao encontrar uma manchete dizendo que “uma planta foi comprovada pela ciência”, procure descobrir qual preparação realmente foi estudada.

Quando um chá não é a solução

Preparar uma bebida quente, reduzir estímulos e criar alguns minutos de tranquilidade pode fazer parte de uma rotina agradável.

Entretanto, um chá não deve servir como substituto automático para avaliação ou tratamento quando sintomas persistem, pioram ou começam a interferir na rotina.

Da mesma forma, medicamentos prescritos não devem ser interrompidos ou substituídos por plantas simplesmente porque determinado produto é descrito como “natural”.

Perguntas frequentes

Chá calmante realmente funciona?

Depende do que significa “funcionar”. Algumas plantas possuem tradição de uso e pesquisas clínicas com resultados interessantes. Entretanto, espécie, preparação, dose e qualidade dos estudos variam, e isso impede tratar todos os chamados chás calmantes como terapias comprovadas.

Chá pode substituir medicamento para ansiedade ou insônia?

Não se deve substituir um tratamento prescrito por chá ou planta medicinal sem orientação do profissional responsável pelo tratamento.

Posso misturar vários chás tradicionalmente associados ao relaxamento?

Não é correto considerar uma mistura automaticamente segura. Ao combinar várias plantas, também se combinam diferentes substâncias, tornando mais difícil prever tolerância e possíveis interações.

Posso tomar esses chás todos os dias?

Não existe uma regra válida para todas as plantas. Frequência adequada e segurança dependem de espécie, preparação, quantidade, características individuais e uso de medicamentos.

Chá de sachê e planta medicinal são a mesma coisa?

Não necessariamente. Podem existir diferenças de finalidade, concentração, parte vegetal, apresentação e regulamentação.

Erva-cidreira e capim-cidreira são iguais?

Não necessariamente. Melissa officinalis e Cymbopogon citratus, por exemplo, são plantas distintas. O nome científico ajuda a eliminar essa confusão.

Um hábito simples merece informação de qualidade

Os chás tradicionalmente associados ao relaxamento podem fazer parte de momentos agradáveis do dia, mas entender suas limitações torna essa escolha mais consciente.

Camomila, melissa, passiflora, valeriana, lavanda e capim-cidreira mostram justamente como tradição, pesquisa científica e comprovação clínica não são a mesma coisa.

Por isso, talvez a melhor pergunta não seja apenas “qual chá acalma?”, mas qual planta estou usando, qual preparação foi realmente estudada e o que a ciência consegue afirmar sobre ela até agora?

Gabriel

Meu nome é Gabriel Mosena, sou fundador e editor responsável por este projeto. Por ser tetraplégico, minha rotina e minhas ferramentas de trabalho concentram-se no notebook. Diante dessa realidade, decidi transformar minhas horas de navegação e pesquisa em algo produtivo e significativo: criar um portal que ajudasse outras pessoas a encontrarem respostas rápidas para os desafios do dia a dia.

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